quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Mito, utopia, fantasia...afinal onde pára o amor hoje em dia?

ELOGIO AO AMOR - Miguel Esteves Cardoso in Expresso

Quero fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de
verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar
sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática.
Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado.
Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é
mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e
das calças e das contas da lavandaria.

Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de
antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo". O amor
passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios.
Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor
transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A
paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se
uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem
de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas.

Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do
amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas,
farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi
namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje.
Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia,
são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá tudo bem,
tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides,
borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já
ninguém aceita a paixão pura,
a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a
doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito
ao mesmo tempo?

O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não
é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a
pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso
"dá lá um jeitinho sentimental". Odeio esta mania contemporânea por sopas e
descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se
vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a
loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É
essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é
para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode.
Tanto faz. É uma questão de azar. O nosso amor não é para nos amar, para
nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de
inferno aberto.

O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A
"vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um
fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem
tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não
dá para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa
alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe,
não apanha, não larga, não compreende. O amor é uma verdade. É por isso que
a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e
minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade
pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num
momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre.
Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito
desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante
o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos
acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem.

Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se
ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver
sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode
ceder. Não se pode resistir.

A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a vida inteira, o amor não.



K. Campos - Ao ler este texto, confesso que realmente o que está descrito corresponde inteiramente à realidade dos nossos dias... Infelizmente...

Por diversos factores o amor tornou-se mais racional e pensado, mas se reflectirmos, isto é amor? Sintetizando o que diz o Miguel Esteves Cardoso, o amor devia ser um acto irreflectido! Paixão! Fruto de momentos, gestos e acções! Infelizmente a nossa sociedade reprime um pouco as pessoas impulsivas e as que ainda existem não são compreendidas...
Então, podemos dizer que a alteração da nossa maneira de amar é fruto da sociedade "evoluída" em que vivemos.

O autor foca uma situação da qual discordo...

"Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática.
Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado.
Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é
mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e
das calças e das contas da lavandaria."

Não me parece que se trate disso... Apenas, as pessoas tendem a procurar a sua "alma gémea" dentro duma espécie de circulo de amigos, não porque seja mais fácil, mas na minha opinião, porque desta maneira "aparentemente" as pessoas se conhecem melhor. De qualquer maneira há sempre surpresas, eu que o diga que já o sofri na pele.

De qualquer das maneiras, de facto, já não se cometem loucuras por amor, já não se enfrentam pais à espera na entrada de caçadeira em punho, já não se sobem varandas, já não se canta ao luar...



Pandora de Montmartre- Ja não se ama, e há muito que eu me apercebi disso... ja não se sonha, já não se divaga...pés na terra, firmes e unos...medos e receios são como sombra...ama-se em segredo porque á vergonha de mostrar a felicidade...
já não se sorri por sorrir sem saber porquê, já não se chora porque há saudade, já não se passam horas sem dormir porque alguém, nessa noite decidiu passear no nosso pensamento...
tal como disse o meu caro K.Campos, " já não se enfrentam pais à espera na entrada de caçadeira em punho, já não se sobem varandas, já não se canta ao luar...", eu sublinho e acrescento, hoje em dia já não se ama, acomoda-se...


Atrevam-se e comentem, discutam e exponham a vossa opinião...